‘Concessões, se fiz, foram poucas e não mudaram a trama’, diz João Emanuel Carneiro

Por LÍGIA MESQUITA
O autor João Emanuel Carneiro (Leo Lemos/Folhapress)
O autor João Emanuel Carneiro (Leo Lemos/Folhapress)

A uma semana do fim de “A Regra do Jogo” (Globo), João Emanuel Carneiro conta que esta foi a novela com a qual mais sofreu. “É uma afirmação que você tem que fazer da sua vontade artística. ‘Avenida Brasil’ foi sucesso de cara, não tive que afirmar tanto”, diz.

A trama enfrentou a concorrência de “Os Dez Mandamentos” (Record) e, nos primeiros meses, teve audiência aquém da esperada, com média de 25 pontos no Painel Nacional do Ibope (cada ponto equivale a 684,2 mil espectadores). Em fevereiro, marcou 32 pontos.

“Conseguimos levantar a audiência do horário, que estava combalida após a última novela [‘Babilônia’].”

Para Carneiro, o público compreendeu a trama, que mostra a dubiedade de caráter do protagonista. “A tendência, com medo de desagradar o público, é fazer uma coisa cada vez mais rasteira, simplória, e fiz algo difícil que foi bem assimilado.”

Ele falou à coluna, no Rio.

Foi uma surpresa a novela não ser um sucesso de cara?
Foi. E uma aprendizagem. Aprendi a insistir na minha ideia, a ter perseverança, o que não precisei nas outras que já foram sucesso.

Isso atrapalhou seu trabalho?
Não. Sempre tive certeza da história que queria contar. Se desacreditar, tá ferrado.

Houve pedido para você mudar a história?
A TV é ansiosa e vive o instante da audiência. Então, as pessoas se desesperam quando não dá o número esperado. A TV tem dificuldade de olhar adiante, já que é uma guerra diária. Quando o ibope sobe, quem dizia “novela policial não pode” fala “é o que todo mundo quer”.

Mas precisou mexer na trama?
Concessões, se fiz, foram poucas e pequenas e não alteraram o conjunto da obra. Fiz exatamente a história que eu queria fazer, com um pouco menos de sexo, de violência. Tirei coisas mais pesadas da Nelita (Bárbara Paz), amenizei o triângulo Merlô (Juliano Cazarré), Ninfa (Roberta Rodrigues) e Alisson (Leticia Lima). Já disse que o público está sempre certo, mas sinto que ficou mais conservador.

Não era assim em “Avenida Brasil”?
Fiz “Avenida Brasil” no apogeu econômico do país. Talvez no apogeu as pessoas estejam com mais humor, mais bem dispostas a aceitar coisas novas do que num momento pesado como hoje. No início, reclamavam que “A Regra…” parecia continuação do “Jornal Nacional”, porque é realista, tem violência… Isso que era para ser um feito, virou um problema. Talvez num momento assim as pessoas tendam a ir para algo escapista.

Há um discurso de que o público está “cansado da realidade” e que novelas são feitas para sonhar. Concorda?
Não pode ter mais nada real em dramaturgia? Aí faz só “Pinóquio”. Teoricamente é um grande elogio falar que é real. “Avenida Brasil” não foi feita para sonhar. Era a história de uma criança abandonada no lixão e foi o maior sucesso da TV dos últimos 20 anos. Acho que novela pode ser para não sonhar também. O bom da TV é que todas as teorias acabam naufragando.

Viu “Os Dez Mandamentos”?
Algumas vezes. Acho que queriam uma coisa diferente do que eu tava mostrando, uma mensagem de Deus, né? É você contra Deus e a Bíblia.

É bom para a teledramaturgia haver concorrência?
É sempre bom. O desafio é sempre melhor do que você ser dono sozinho, você sente que a pessoa te escolheu. E a Rede Globo faz as melhores novelas, é a realidade. Agora, é um processo mais cansativo.

Você acompanhou o ibope durante toda “A Regra do Jogo”?
Acompanhei. Novela é um jogo que se joga com as pessoas também. Aquela máquina [de medição de audiência] é um oráculo. E de alguma maneira meu destino tá sendo traçado ali. É igual a jogador de futebol. Seu último trabalho é o que conta, e o julgamento é cada vez mais aquilo ali.

Agora na reta final, olhando para a novela toda, gosta do seu trabalho, do que foi ao ar?
Muito. Mesmo se o ibope não tivesse crescido. Acho que toda coisa da TV é achar que você vai fazer algo que você não gosta para alguém que você não conhece, que é a tendência da cultura de massa. Se você achar isso, que vai mudar tudo, fazer o gosto de alguém, começa a se perder e a perder o público.

É muito difícil fazer uma trama policial?
Muito. Ainda mais com 167 capítulos, tentando não se repetir. É um jogo de chinês aposentado. Tem coisas impossíveis. Aprendi muito fazendo, batendo a cabeça na parede. Tinha dia que acordava e não sabia o que fazer, já tinha repetido tudo. Falava: tive quatro sequestros, o que faço agora? O mais angustiante é acordar e ter que pensar no capítulo , é desesperador. “A Favorita” era muito difícil também.

Por que o policial Dante era enganado por todos, um tipo bobo até mais da metade da novela?
As novelas são muito longas, e alguns personagens são bobos,  senão as histórias não se sustentam e logo os crimes são descobertos (risos). Ele foi bobo muito tempo. Mas depois descobriu tudo.

Como será o fim do Zé Maria (Tony Ramos)?
Tudo que falam do Zé Maria está errado. Só dará para defini-lo depois do último capítulo. Ele é todo díspar e no final vai ser “montado”. Não falo mais nada.

Imaginava que a Atena (Giovanna Antonelli) teria grande aceitação mesmo cometendo tantos crimes? Sempre foi personagem carismática?
Eu imaginava. Ela tem um lado humano muito errático. Se apaixona, erra, perde o foco. E se humaniza o tempo todo. É uma messalina errática, não é fria. E é muito divertida.

As tramas paralelas da novela quase não se conectam com a principal, como em seriados. Desde o início foram pensadas dessa maneira?
Sim. Gosto de fazer histórias em que as tramas paralelas tenham vida própria, odeio novela de repercussão. Fica aquela coisinha de presépio, com personagens repercutindo o que o protagonista fez, uma encheção de linguiça. Os personagens paralelos têm histórias, não estão ali para ser o amigo que ouve.