Felipe Andreoli: “É mais natural fazer o ‘Encontro’ do que o ‘CQC’”

Por Folha

POR GABRIELA SÁ PESSOA (INTERINA)

Egresso do “CQC” (Band) e da TV Cultura, o jornalista Felipe Andreoli cumpre em janeiro um ano como repórter do “Encontro com Fátima Bernardes” (Globo). A partir desta segunda (27), assume a atração ao lado de Ana Furtado, durante as férias da apresentadora. Na TV paga, apresenta o dominical “Extra Ordinários”, no SporTV.

 

O jornalista Felipe Andreoli - crédito Bruno Poletti/Folhapress
O jornalista Felipe Andreoli – crédito Bruno Poletti/Folhapress

“Encontro” leva o nome da Fátima. Como assumir o programa no lugar dela?

É “Encontro com Fátima”. Assim como o “Mais Você” [de Ana Maria Braga], são programas que têm a cara do dono. É um dos motivos de ter dois apresentadores [nas férias]. Uma pessoa só é muito difícil segurar, pelo peso que a Fátima tem.

Tentei aprender o máximo. A partir de quando fiquei sabendo, fiquei observando como a Fátima se movimentava no estúdio, as câmeras para que ela olhava, a maneira como ela trata os entrevistados, antes e depois de entrar no ar.

Por eu ser homem, mais jovem, uma personalidade totalmente diferente, vou ter esse alvará de fazer do meu jeito —foi o que ela [Fátima] me falou. Como a Ana [Furtado] já tem essa experiência, bater essa bola com ela vai ajudar a dividir a responsa.

O programa com frequência fica entre os assuntos mais comentados no Twitter. Qual é o papel das redes sociais na relação com o público?

Até brinquei com a Fátima sobre a bolada [Andreoli, ao fazer embaixadinhas, acabou acertando a bola na cara da apresentadora]: “Pô, passei o ano inteiro fazendo matéria, e o que deu mais destaque foi te dar uma bolada”. A gente sabe que essas coisas viralizam. Como a Fátima ficou anos fazendo a bancada do “Jornal Nacional”, qualquer coisa que saia um pouco do normal é incrível.

A Fátima cair, tomar bolada, vai ser sempre incrível. Por mais que a gente já tenha se adaptado e saiba que está num projeto totalmente diferente, vem aquela imagem: “Caramba, tocou o telefone ao vivo da mulher do ‘Jornal Nacional'”.

Qual a diferença em ser formado jornalista e trabalhar com humor?

Em nenhum momento eu fui ou sou inconsequente. Não quero ficar vivendo de uma piada só, e ficar revivendo essa piada para as pessoas ficarem falando de mim. Não quero que a comunidade A, B ou C fique indignada comigo por causa de uma piada que fiz, porque eu não sou assim.

Acha que seus colegas são inconsequentes?

Acho que eles se importam, mas fingem que não se importam em falar qualquer coisa. Você nunca vai me ver falando coisa despropositada.

Desde o começo, o que me ajuda é ter noção das coisas. Saí do “CQC” e fui para o “Encontro”. O “CQC” era um programa semanal, no fim da noite de segunda-feira. O “Encontro” é um programa diário, às 11h. O que falo no “CQC” não posso falar no “Encontro”.

Hoje, sou muito mais eu, é muito mais natural fazer o “Encontro” do que o “CQC”. Porque às vezes eu tinha que forçar uma graça, falar alguma coisa que eu ficava desconfortável. Fazer uma piada com alguém que às vezes eu não achava engraçada –e eu não fazia, sempre me posicionei assim. Muitas vezes, piadas em grupo, propostas pelo produtor, pela galera que faz roteiro, e eu olhava algumas coisas e falava: “Isso não vou falar, não vou fazer. Não acho engraçado”.

Você se recusou a fazer alguma piada no “CQC”?

Não é questão de recusar, não existe isso de “me recuso”. Eu simplesmente não fazia, pronto. É a minha imagem que está indo para o ar e meu relacionamento com aquela pessoa. Meu pressuposto de fazer o “CQC” sempre foi: para mim, só é engraçado se a pessoa que eu estou entrevistando está rindo junto comigo. Não é engraçado rir dela.

O único momento em que eu tinha uma postura mais agressiva fosse quando tratava de alguma coisa de política, porque me sentia também maltratado por aquelas pessoas. Mas eu nunca seria agressivo com um cantor, com um ator, seja ele um ator da “Malhação”, como a gente sempre fazia milhares de piadas, seja ele um cantor de axé, como a gente sempre fez milhares de piadas.

Mas qual é o limite da agressividade? Humoristas às vezes são agressivos, muitas vezes acontecem disputas judiciais por causa de piadas.

Eu acho que [o limite] é totalmente individual. Para mim, às vezes é um negócio que não ofende e, para outro, ofende. Pode ser que em algum momento eu tenha uma piada que não achei ofensiva e que alguém tenha achado. É uma coisa totalmente inocente.

Sempre cobri muito esporte. Uma vez, estava fazendo uma coletiva da seleção brasileira e acho que o zagueiro era o Luizão, se não me engano. E o jogo do Brasil era contra o Peru. Então imagina o milhão de trocadilhos e piadas que tinha com o Peru. Quando fiz a pergunta, o cara ficou puto e não quis mais falar. Não achei que fui agressivo, que passei do limite, mas o cara não estava afim daquela brincadeira. E tudo bem.

Quando o “CQC” começou –não que fosse mais destemido, mas acho que ainda estava encontrando esse equilíbrio–, lembro que perguntei para o Luciano, da dupla [com Zezé di Camargo], alguma coisa sobre o programa da Ana Maria: “Você acha que o povo consegue cozinhar todas aquelas comidas que a galera está cozinhando lá?” e ele ficou super incomodado, me deu uma resposta superagressiva, também porque naquela época ninguém conhecia o programa.

Quando as pessoas começaram a conhecer, passaram a adotar outro “modus operandi” de tratar com aquilo ali.

Sempre ouvi recorrentemente dos entrevistados: “Para você, eu dou entrevista”. Muitas vezes, sem citar nomes, principalmente a galera do esporte e muitos artistas, quando a gente conseguia marcar a entrevista, dizia: “Eu faço se for o Andreoli”.

Foram sete anos de “CQC”, eu construí essa personalidade. Sempre fui o “gente boa”. E muitas vezes ouvia que eu era o coxinha, o bunda mole, que puxava o saco. Quantas vezes os caras do “CQC” mesmo faziam uma piada e diziam que eu era puxa-saco? Mas na hora que precisava de alguém para entrevistar, e o artista escolhia, esse alguém era eu.

Falta aos humoristas entender que eles nem sempre têm graça?

Não acho que os humoristas nem sempre têm graça. Acho que a graça é muito particular, individual. Toda piada depende do contexto.

Quantas piadas que o Rafinha [Bastos] e o Danilo [Gentili] foram colocados como os polêmicos, como os caras que gostam de falar de qualquer jeito… Se eles tivessem feito numa mesa de churrasco, passaria batido. Só que quando você faz na TV, numa rede social —ou seja, publicamente—, isso toma outra dimensão, existe outro contexto.

Talvez isso seja o mais coerente de se avaliar: se eu falar isso aqui, qual o tamanho da merda que vai dar? Às vezes eu acho que eles medem, e acham que é legal essa repercussão. Tem gente que acha que é bacana fazer isso, vão falar deles. Tem gente que gosta de jogar no falem mal, mas falem de mim.

Você e a Mônica Iozzi, hoje no “Vídeo Show”, começaram no “CQC” e estão à frente de duas atrações importantes da Globo. O que o programa tem de diferente?

O “CQC” de alguma forma conseguiu mostrar que dá para você ser descontraído e ter credibilidade. Eu posso ser descontraído, que dá uma gargalhada no meio do programa, e passar uma notícia. Esse equilíbrio é o segredo até para fazer o “Encontro”.