‘Trouxemos isso de brincar, ser menos chapa-branca’, dizem Otaviano e Iozzi

Por LÍGIA MESQUITA
Monica Iozzi e Otaviano Costa durante apresentação do 'Vídeo Show' (Globo)
Monica Iozzi e Otaviano Costa durante apresentação do ‘Vídeo Show’ (Globo)

Desde abril, quando a atriz Monica Iozzi passou a apresentar o “Vídeo Show” (Globo), ao vivo, ao lado de Otaviano Costa, a espontaneidade e o humor dos dois ganharam o público.

Eles se fantasiam, recebem atores no estúdio e fazem piada de tudo. Nem o diretor-geral da Globo, Carlos Henrique Schroder, escapa: é chamado de Schumacher.

“A gente não combina nada. Sentamos na bancada e decidimos na hora”, diz ela.

No fim do ano, a dupla deve ser desfeita. Iozzi, ex-integrante do “CQC” (Band), quer focar a carreira de atriz.

“Quando surgiu a Monica, falei: o Boninho [diretor] enlouqueceu. Eu sabia o que ela podia causar em mim, mas não imaginava essa química”, afirma Costa.

Leia a entrevista:

Sempre tiveram liberdade para improvisar?
Costa – Temos liberdade total, mas com bom senso. E a liberdade em termos de falta de censura é enorme. Eu imito o Silvio Santos, falo de outras emissoras.
Iozzi – E quando tem fofoca a gente fala “ok, ok, ok” [igual ao Nelson Rubens, da RedeTV!]. O que fomos criando foi sendo aceito.

Foi ideia de vocês humanizar esse mundo de celebridades?
Costa – Somos atores, conhecemos esse mundo. E resolvemos tratá-lo com respeito, mas sem deixar de fazer chacota. Trouxemos isso de poder brincar com ator, ser menos chapa-branca.
Iozzi – A gente tem o humor nesse sentido, não de provocar ou ser piadista. Uma vez o Clodovil [estilista morto em 2009] apareceu num arquivo e a gente riu da roupa dele. A gente tenta trazer o mundo artístico para uma coisa mais humana.

A experiência como atores ajuda nessa função de comandar o ‘Vídeo Show’?
Costa – Gosto de me autodenominar comunicador. A gente comunica. Ter que se caracterizar, por exemplo, está tudo dentro do ofício de comunicador.
Iozzi – O Ota é ele mesmo. Já eu sou uma personagem. Às vezes dou umas piradas, não me reconheço. Para mim, é tudo novo, estudei para ser atriz. Tinha que construir alguma coisa para estar ali, preciso ter alguma máscara.

Monica, por que você vai deixar o “Vídeo Show”?
Iozzi –
No começo, era para eu ficar muito pouco tempo, mas aí a repercussão foi tão bacana, o público foi tão carinhoso, eu me dei tão bem com a equipe e fui ficando. Algumas decisões são muito importantes na vida. Você decidir mudar completamente o rumo da carreira é algo que você tem que pensar, analisar. E eu não tive esse tempo e foi tudo muito de supetão. Num intervalo de quatro dias eu virei apresentadora e mudei de cidade. Meu apartamento está fechado em São Paulo, tive que abrir mão de projetos que eu já estava fazendo de cinema, de teatro. Agora, antes de tomar uma decisão definitiva, preciso sentar e pensar no que eu quero. Fazer as coisas com tranquilidade, colocar a vida no eixo, sabe?

Você continua no programa, Otaviano?
Costa –
Sigo. Eu sou compromissado com o “Vídeo Show”. Um dia quero ter meu programa de auditório. Até lá, sou “Vídeo Show” com o maior orgulho e tesão do mundo.
Iozzi – [Interrompendo] Diferentemente de mim, ele faz por amor, não é mercenário (risos).

Há limite para as brincadeiras?
Costa – Existe aquele limite que você conhece antes e existe aquele limite que você só percebe depois. O limite que vem depois é o pior e isso a gente só descobre na prática.
Iozzi- A gente tem que saber que o nosso público é de classes sociais diferentes, de idades diferentes, de ideais políticos diferentes, religiões. Então tem que ser abrangente. Não dá para você falar com um público específico. Acho que a gente tem que se policiar nesse sentido.
Costa- Hoje no Brasil está tão difícil você emitir opiniões, elas estão cercadas de ‘xiitismos’. Hoje eu prefiro debater o que eu penso com quem eu sei que vai entender do que abrir isso no ar. Ou se eu tiver que dizer algo, que eu diga algo muito exato.

Qual é a maior dificuldade para fazer o programa? Vocês levam uns foras no ar…
Costa –  A gente tem esse poder de rir da gente mesmo. A gente ri, ‘tá ridículo’. Para mim, a maior dificuldade é estar com a mesma essência/brilho/tesão todos os dias. As pessoas acabam pedindo isso, cobrando isso e não há nada de errado nisso. Pelo contrário, se eu estivesse em casa, também gostaria de ver todo dia a mesma coisa.
Iozzi – Acho que para mim também. Por mais que não seja um programa humorístico, o “Vídeo Show” traz descontração, alegria para as pessoas. É impressionante como o público sente
quando você está um pouco mais baqueado. É uma hora no ar com um nível de energia que tem que estar lá em cima. Às vezes isso é bem difícil.

Como renovar um programa há 30 anos no ar?
Costa – Tem que pensar em tudo o que já foi construído nesse período, mas também no agora. Acho que a gente está fazendo um programa já pensando como contemplar essa cara das redes sociais e não jogar fora a audiência que já existia. Tinha gente que não via o “Vídeo Show” e passou a ver, um público adolescente. A gente se diverte fazendo e as pessoas veem isso. Quando a Monica chegou, nós e a direção pensamos em sentar ali como telespectador e rir, chorar, interagir com o que a gente fosse vendo. Acho que disso surgiu essa espontaneidade.
Iozzi – Eu não acredito muito que a gente tem que transformar a televisão para pegar o público da internet. O público da internet é o mesmo público da televisão e são propostas diferentes. A pessoa sabe que na internet ela não vai encontrar um programa ao vivo que faça o que a gente faz. A pessoa quer ver coisa boa, não interessa se na TV ou na internet.
A gente acabou não fazendo piloto. Fiz um teste na quinta e na segunda seguinte entramos no ar. A gente faz como se estivéssemos na sala de casa, sabe? É um deboche só.